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Entre a Estética e a Identidade: Racismo Internalizado, Influência Digital e a Valorização do Cabelo Crespo no Brasil

  • Categoria: publicidade
  • Publicação: 29/04/2026 16:28
  • Autor: Elizângela Santos
A polêmica envolvendo falas de influenciadores sobre cabelo crespo não é apenas um episódio isolado de opinião pessoal, ela revela camadas profundas de um problema estrutural: o racismo internalizado, a falta de letramento racial e os impactos históricos na autoestima da população negra. A influenciadora digital Jojo Todynho, reacende um debate que o Brasil ainda evita encarar com a profundidade necessária. O quanto o racismo estrutural molda a forma como pessoas negras enxergam a si mesmas, e como isso se manifesta publicamente
A fala recente da Jojo Todynho, não pode ser analisada apenas como um desabafo individual sobre estética. Ela expõe uma ferida histórica ainda aberta no Brasil, a dificuldade de aceitação dos traços negros, especialmente o cabelo crespo, e o quanto isso está diretamente ligado ao racismo estrutural e à ausência de letramento racial.
O cabelo crespo, assim como outros traços fenotípicos negros, foi historicamente alvo de estigmatização, durante séculos, padrões eurocêntricos foram impostos como sinônimo de beleza, civilidade e aceitação social. Nesse contexto, rejeitar o próprio cabelo ou reforçar discursos que os desvalorizam, isso não surge do nada, é fruto de um processo contínuo de desumanização simbólica. Por isso, quando uma figura pública reproduz esse tipo de fala, não se trata apenas de uma opinião individual, mas de algo que dialoga diretamente com essa herança histórica.
Quando uma mulher negra, com grande alcance nas redes sociais, afirma incômodo com seu cabelo natural e aponta para a valorização de outros traços, ainda que de forma subjetiva — isso dialoga com uma construção histórica que sempre colocou o padrão eurocêntrico como referência de beleza. O cabelo crespo, nesse processo, foi alvo de rejeição, estigmatização e tentativa constante de apagamento.
É importante dizer: o direito à escolha estética é individual, usar perucas, alongamentos ou mudar o visual não é o problema, a questão central está no discurso que acompanha essa escolha. Quando essa decisão vem carregada de rejeição ao que é natural, e, principalmente, quando isso é comunicado publicamente sem reflexão crítica, o efeito pode ser coletivo e profundo.
A falta de letramento racial, faz com que muitas pessoas negras, não reconheçam como o racismo opera de forma subjetiva, moldando desejos, preferências e até rejeições. Isso não é sobre culpabilizar indivíduos, mas sobre compreender que o auto-ódio não nasce espontaneamente, ele é construído socialmente, alimentado por anos de exclusão simbólica e reforçado por narrativas que desvalorizam a estética negra.
Então, o que foi dito pela influenciadora é estímulo ao auto-ódio? Ainda que não haja intenção explícita, falas que expressam rejeição ao cabelo crespo ou que colocam outros traços como mais desejáveis acabam, sim, contribuindo para a manutenção de um imaginário que alimenta o auto-ódio. Especialmente entre jovens negros, que buscam referências para construir sua identidade e autoestima.
Temos que entender que a valorização da estética negra é um movimento político, cultural e social, não se trata apenas de aparência, mas de afirmação de identidade, de resistência e de reconstrução da autoestima coletiva. Cada vez que o cabelo crespo é afirmado como belo, rompe-se um ciclo histórico de negação. Por outro lado, cada discurso que o deslegitima reforça esse mesmo ciclo.
Sobre os limites de um influenciador: quem ocupa espaços de visibilidade não fala apenas por si. Influencia comportamentos, constrói narrativas e impacta diretamente a forma como outras pessoas se percebem. A liberdade de expressão existe, mas não pode ser dissociada da responsabilidade social, especialmente quando se trata de temas tão sensíveis e historicamente marcados por desigualdades. Então a pergunta, “até onde um influenciador pode ir?” talvez precise ser reformulada: até onde estamos dispostos a naturalizar discursos que reforçam desigualdades?
Mais do que julgar ou cancelar, a crítica, nesse caso, não deve ser apenas punitiva, mas pedagógica. É necessário transformar esse tipo de episódio em oportunidade de debate, consciência e educação promovendo letramento racial, consciência histórica e valorização da estética negra. Ao mesmo tempo, é fundamental cobrar responsabilidade de quem ocupa esses espaços, porque suas falas não são neutras, elas constroem imaginários, influenciam comportamentos e podem, sim, afetar profundamente a autoestima de toda uma geração.
No fim, não se trata apenas de uma pessoa ou de uma fala. Trata-se de um sistema que ainda precisa ser enfrentado com firmeza, consciência e compromisso coletivo. Porque, no fundo, essa discussão não é sobre cabelo é sobre identidade, pertencimento e dignidade.
  Maria Elisangela dos Santos
   Presidente do COMPPIR/AJU